Comando para Ignorar Faixa de Opções
Ir para o conteúdo principal
Compartilhe:
14/06/2016

Crise leva brasileiros a abrirem novos negócios sem preparo ou garantias

A recessão econômica tem exposto os brasileiros ao risco. Sem perspectiva de encontrar um novo posto de trabalho, eles estão abrindo empresas, mesmo sem preparo e garantias financeiras, o que pode não sustentar no curto prazo.
Dados mais recentes da Serasa Experian mostram, por exemplo, que o número de abertura de empresas bateu recorde no País no primeiro trimestre deste ano.
No período, o Brasil contabilizou 516.201 novos negócios, o maior patamar para os três primeiros meses do ano desde 2010. O surgimento de 413.555 microempreendedores individuais foi o que puxou o resultado recorde. Além disso, do total de nascimentos de empresas, 63% são do segmento de serviços.
"Os brasileiros estão sendo forçados a se tornar empresários, dada a dificuldade de encontrar uma nova vaga de emprego", afirma o economista Silvio Paixão, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).
"O problema disso é que nem todo mundo está preparado para empreender. Abrir um negócio não é só oferecer um serviço que você sabe prestar bem. Se você sofre um calote, por exemplo, mas não tem capital de giro, você quebra", acrescenta o especialista.

Perspectiva
Pela falta de preparo, Silvio Paixão avalia que, no curto prazo, é possível que muitos MEIs retrocedam e acabem fechando. "Está todo mundo querendo contornar a situação do desemprego. Porém, uma parte desse pessoal que abriu MEI certamente voltará a ser empregado quando a economia retomar crescimento. O problema é que ainda não temos sinais consistentes de recuperação", acrescenta ele, mencionando que as incertezas políticas e econômicas ainda são grandes para falar em retomada mais à frente.
Celso Grisi, presidente do Instituto Fractal Análises de Mercado, concorda com esta avaliação e reafirma que o brasileiro está empreendendo hoje por necessidade. "As pessoas estão sendo arremessadas para a situação de PJ [Pessoa Jurídica], o que as coloca em uma situação de profunda precarização do trabalho. Ao deixarem de ser empregadas de uma companhia, elas passam a ganhar um salário muito inferior ao que recebiam como funcionárias, a não ter assistência médica, vale refeição", diz.
Além do crescimento do empreendedorismo por necessidade, há informações de empresas que estão transformando celetistas em Pessoas Jurídicas. Grisi observa ainda que a falta de perspectiva de recuperação da demanda pode levar a um encerramento de MEIs já no curto prazo.
Assim como Silvio Paixão, ele considera que a recuperação da confiança não está dada. "Do ponto de vista político, as instituições ainda deixam dúvida para empresariado. [O presidente interino, Michel] Temer não teve a aceitação que achávamos que ele teria", opina o especialista.

Mais preparadas
Os dois entrevistados ressaltam que até mesmo as empresas mais preparadas e que estavam consolidadas no mercado antes da crise econômica estão lutando para sobreviver. Para eles, isso é mais uma sinalização de que os novos negócios possam não se sustentar nos próximos meses.
De acordo com a Serasa Experian, a cada minuto uma empresa é negativada por falta de pagamento. Um levantamento de abril de 2016 apontou que, das cerca de 8 milhões empresas em operação no Brasil, 4,4 milhões estão negativadas. As dívidas atrasadas somam R$ 105,6 bilhões.
O número de recuperações judiciais também está batendo recorde. Segundo a mesma entidade, as solicitações feitas entre janeiro e maio de 2016 foi 95,1% superior ao registrado em igual período do ano passado. Foram 755 ocorrências contra 387 apuradas entre janeiro e maio de 2015. O resultado é o maior para o acumulado dos cinco primeiros meses do ano desde 2006.
Outros dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram ainda que os três principais setores da economia continuam em retração. No acumulado de doze meses até março, a produção industrial caiu 9,7%, ante os 12 meses imediatamente anteriores. Na mesma base de comparação, o volume de vendas do comércio varejista recuou 5,8%, enquanto o volume de serviços comercializados registrou queda de 4,4% até março deste ano. (Fonte: DCI)